Corpo x mente

Oct 5th, 2009 | Por Balípodo | Categoria: O mundo não é uma bola

Juande Ramos não é um gênio. Se fosse, não estaria no CSKA Moscou. Mas ele também não é um ignorante completo. Se fosse, não estaria no CSKA Moscou. Na temporada passada, durante sua passagem pelo Real Madrid, o técnico espanhol utilizou bastante o brasileiro Marcelo. Quase sempre como meia-esquerda. Quem viu Sevilla 2×1 Real Madrid, a primeira derrota merengue nesta temporada, entendeu o motivo.

Neste domingo, o ex-Fluminense ficou na lateral, sua posição de origem. Tornou-se o caminho para a vitória sevillista e, principalmente, para Jesús Navas brilhar. Diante de um marcador fraco, o meia-direita teve todo o espaço do mundo: criou jogadas, pela ponta e pelo centro, finalizou e decidiu. Por exemplo, foi ele quem abriu o marcador, antecipando-se a Marcelo para cabecear no canto esquerdo de Casillas.

Uma atuação maiúscula como a deste fim de semana deixa no ar a pergunta: “será que ele não teria espaço na seleção espanhola?”. Uma ideia que se reforça quando se percebe que o sevilhano tem apenas 23 anos e, mesmo assim, foi titular absoluto das campanhas vitoriosas de seu clube em duas Copas Uefa e ainda ajudou a transformar Luís Fabiano e Kanouté em dois dos principais atacantes do futebol espanhol.

Bem, a Espanha muitas vezes se dá ao luxo de colocar Fàbregas e Xabi Alonso no banco de reservas. Ou seja, não pode reclamar da falta de meias. Ainda assim, seria possível encaixar Navas no banco, como uma versão destra do canhoto David Silva. Foi pensando nisso que Luis Aragonés convocou o sevillista algumas vezes. Mas o jogador recusou muitos dos chamados.

Não se trata de falta de patriotismo ou atrito com os técnicos da seleção espanhola. Navas até gostaria de defender a Espanha. Ele simplesmente… não consegue. Cigano, o meia foi criado em uma pequena cidade nos arredores de Sevilha. Mesmo depois de se tornar um jogador de sucesso, ele não consegue viver longe de sua terra. Não é apenas saudade, é uma doença psicológica crônica.

Em longos períodos fora de Sevilha, o meia sofre de ataques de ansiedade e chegou a ter convulsões. Ele já fugiu de concentração e recusou-se a viajar com o clube para excursões fora da Espanha. Sua condição de saúde – problema psicológico não deixa de ser um problema de saúde – limita seu desenvolvimento, fazendo que Navas tenha momentos de baixa e, principalmente, boicote sua própria carreira.

O meia tem noção de que precisa enfrentar sua doença. Seguindo conselhos de psicólogos do Sevilla, o jogador aceitou participar da pré-temporada de seu clube nos Estados Unidos em agosto, até como forma de autodesafio. Esse esforço extra se deve ao desejo de integrar a seleção espanhola na Copa do Mundo de 2010: “eu tenho de estar calmo e tomar minhas decisões. Eu tenho de continuar dando os passos certos”.

A fase decisiva do tratamento de Navas está apenas começando. Só nos próximos meses se saberá se ele realmente controlou seus problemas para que sua carreira tenha sucesso proporcional a seu talento. Pelo que o meia mostrou contra o Real Madrid, o potencial de crescimento é grande. Marcelo e o lado esquerdo dos merengues que o digam.

Ubiratan Leal

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