A nova velha China
Aug 4th, 2008 | Por Balípodo | Categoria: Artigos, Variedades
Chineses cospem na rua, e muito. Um costume tão enraizado que não é considerado falta de educação, mas algo corriqueiro. Pelo menos era assim até o ano passado. De olho no que podem pensar os ocidentais que verão os Jogos Olímpicos in loco, o governo da China criou uma campanha para que os chineses deixem de cuspir em vias públicas.
A preocupação com cusparadas não é uma ação isolada. A China sabe que a Olimpíada é uma oportunidade rara de se apresentar ao mundo. Por isso, não poupa esforço, planejamento e dinheiro para transformar o evento poliesportivo em um grande show room do que ela se transformou: um país moderno e uma potência esportiva.
Isso explica o porquê de os chineses terem investido cerca de US$ 40 bilhões para receber o evento. Para se ter uma idéia de como esse valor é fora de escala, o Brasil estima gastar entre US$ 10 e 20 bilhões para organizar a Copa do Mundo. Detalhe: os Jogos Olímpicos duram duas semanas e são disputados basicamente em uma cidade, enquanto que um Mundial de futebol ocupa um mês e tem 12 cidades-sede.
O nível de investimento dos orientais só se explica quando se percebe quão faraônico foi o projeto olímpico de Pequim. As principais praças esportivas são novas, e muitas delas tiveram arquitetura extravagante, como o estádio em forma de ninho de andorinha (consumindo aço aos borbotões) e o Cubo d’Água, centro aquático com fachada em bolhas de etileno tetrafluoretileno. No total, foram US$ 2,2 bilhões em instalações esportivas.
O resto do dinheiro foi empregado na remodelação urbanística da capital chinesa. Transporte público e sistema viário passaram por grande modernização. O aeroporto internacional de Pequim ganhou um novo terminal, que só ele custou mais de US$ 3,5 bilhões. Empresas estatais estão com sedes novas, sendo que a nova casa da CCTV (TV estatal) custou US$ 600 milhões. Até o novo teatro nacional entrou na onda de gastos fora do padrão internacional: US$ 320 milhões.
Esportivamente, os chineses também não economizaram. No sonho de bater os Estados Unidos no quadro geral de medalhas, o país investiu pesado na preparação de atletas em modalidades nas quais nunca teve tradição. Foi o “Projeto 119”, criado em 2000 para desenvolver equipes chinesas de atletismo, natação e outros esportes aquáticos (somados, eles distribuíam 119 medalhas de ouro na época da criação do plano). Em 2000, a China obteve apenas um ouro nessas competições, número que quadruplicou em 2004. Se os resultados seguirem nessa linha ascendente, pode ser fundamental para uma vitória dos anfitriões sobre os norte-americanos nos ouros olímpicos.
Com uma capital moderna, rica e audaciosa, uma população “ocidentalizada” e esportistas vencedores, a China imagina acabar com a desconfiança que a comunidade internacional ainda nutre em relação ao país mais populoso do mundo. Mas é só a aparência. O destino dos hutongs (vilarejos de baixo padrão com habitações existentes desde a época do império) deixa claro como atitudes pouco democráticas ainda tomam conta do país. O governo está derrubando esses quarteirões centenários para a construção de mais arranha-céus. Desalojada, a população foi obrigada a se mudar para os subúrbios.
No fundo, as ações ligadas aos Jogos Olímpicos têm o totalitarismo do regime local como pano de fundo. Nenhum país democrático do mundo se disporia a gastar tanto dinheiro para organizar o evento. Mas essa é apenas uma avaliação de mercado. A mão de ferro da ditadura chinesa se vê no cuidado que se tem com a informação. Ou com a capacidade que ela tem de se espalhar pelo mundo.
Uma semana e meia antes da cerimônia de abertura, a China anunciou a lista de sites que estarão bloqueados em território chinês. Entre eles, o portal em mandarim da BBC. A censura não é um fato novo na cobertura da Olimpíada por parte da imprensa internacional. O desfile de tocha olímpica pelo mundo foi marcado por várias manifestações pró-Tibete. Quando o fogo chegou ao território chinês, não houve mais espaço para protestos.
Falar na nação invadida pela China em 1950 é uma espécie de tabu para o governo local. E um foco de tensão no resto do mundo. Nicolas Sarkosy, presidente da França – país que reconhece o Tibete como país independente – e atual chefe do conselho da União Européia, foi pressionado para boicotar a cerimônia de abertura. Em maio, a cidade indiana de Dharamsala recebeu ao Olimpíada Tibetana, evento esportivo de protesto organizado por simpatizantes da causa tibetana. Dez países participaram.
Desse modo, os Jogos Olímpicos mostrarão uma China de nova cara, mas que ainda precisa resolver seus fantasmas do passado. O governo ainda é totalitário, a censura não acabou, boa parte da população não saiu da miséria e a situação do Tibete está longe de ser resolvida. E, para solucionar esses problemas, não adianta gastar bilhões em estádios ou novo terminal de aeroporto.
Ubiratan Leal